1 em cada 5 alunos tem explicações privadas em Portugal. Entre as famílias com rendimentos mais elevados a proporção é ainda mais elevada

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A despesa média mensal por aluno é de 126,4 € por mês, num mercado total de 300 milhões de euros por ano. Nas famílias com rendimentos mais elevados, 1 em cada 4 alunos tem explicações e a despesa com explicações é cerca de 30% mais elevada do que entre as famílias que têm situação financeira menos confortável. O estudo “O mercado das explicações na Península Ibérica”, do Observatório Social da Fundação ”la Caixa”, sugere assim que este reforço escolar pode contribuir para o agravamento das desigualdades educativas.

Lisboa | 13 de março de 2026

Segundo o estudo O mercado de explicações na Península Ibérica, desenvolvido no âmbito do Observatório Social da Fundação ”la Caixa”, 20% dos estudantes entre os seis e os dezoito anos em Portugal frequentam explicações fora do sistema educativo formal. Em termos absolutos, a análise estima que cerca de 200 mil estudantes em Portugal recebem apoio educativo privado. Do ponto de vista económico, o estudo indica que o mercado de explicações em Portugal movimenta mais de 30 milhões de euros por mês, o que corresponde a cerca de 300 milhões de euros por ano. Uma grande proporção desta despesa é feita no âmbito da economia informal, já que apenas 58% das pessoas indicam que os serviços são faturados.

Portugal em comparação com Espanha

· Menor frequência, maior custo: Em Portugal, 1 em cada 5 alunos frequenta explicações, face a 1 em cada 4 em Espanha. No entanto, as famílias portuguesas gastam, em média, cerca de mais 30 euros por mês por aluno (126,4 € em Portugal vs. 97 € em Espanha).

· Maior aposta em acompanhamento individual: As sessões de explicações individuais são significativamente mais comuns em Portugal (41,8%) do que em Espanha (25,3%), o que ajuda a explicar o maior custo médio suportado pelas famílias portuguesas.

· Desigualdade económica mais acentuada em Portugal: As famílias portuguesas em situação económica confortável gastam, em média, mais 28% em explicações do que aquelas com dificuldades financeiras, enquanto em Espanha essa diferença é de

18%, indicando um impacto mais forte do rendimento no acesso a este tipo de apoio educativo em Portugal.

· Motivações distintas: Em Portugal, a preparação para exames é uma das principais razões para recorrer a explicações (31,3%), enquanto em Espanha essa motivação é residual (5,3%), sendo mais frequente a procura por apoio educativo genérico.

Em conjunto, estes dados mostram que, apesar de uma taxa de frequência ligeiramente menor, o recurso às explicações em Portugal é mais intensivo e financeiramente mais exigente do que em Espanha, com implicações claras ao nível da equidade educativa.

A investigação tem por objetivo compreender como as famílias complementam a educação formal com aulas adicionais, bem como analisar as características deste reforço educativo. O estudo foi elaborado por Bruno P. Carvalho, Pedro Freitas, Susana Peralta, Francisco M. Pereira, Juan Carlos Rodríguez e Mercedes Esteban Villar. Em Portugal, os dados foram recolhidos através de um inquérito online realizado em 2024, numa amostra representativa de 2400 agregados familiares, e documentam que cerca de 235.000 agregados familiares recorrem a este tipo de serviço, abrangendo mais de 269.000 alunos.

Quanto gastam as famílias por região

O estudo evidencia diferenças relevantes no recurso a explicações a nível territorial. As regiões do Algarve e Alentejo destacam-se pela elevada proporção de famílias que recorrem a explicações. O Algarve é a região do país com a despesa em explicações por agregado mais elevada (144 €), contrastando com o Alentejo onde a despesa é a mais baixa (105 €).

Explicações como fator de desigualdade

O estudo revela a existência de disparidades significativas, tanto na decisão de frequência de explicações como no montante gasto, em função do poder de compra das famílias. Os agregados familiares que declaram uma situação financeira mais confortável gastam, em média, mais cerca de 30% em explicações do que aqueles que manifestam dificuldades em chegar ao fim do mês. Do mesmo modo, a proporção de estudantes que frequentam explicações aumenta com a melhoria da situação económica, passando de 17,9% entre os agregados familiares em situação de maior fragilidade financeira para 25,9% entre aqueles que declaram com uma condição económica confortável.

Apesar do peso financeiro associado a este tipo de apoio, os dados mostram que o recurso às explicações é transversal a diferentes níveis de rendimento, o que implica que o custo de oportunidade para manter este investimento educativo é proporcionalmente mais elevado para as famílias de menores rendimentos. Esta pressão financeira sobre os agregados de baixos rendimentos pode estar associada a uma redução de outras despesas essenciais.

Tendo em conta o impacto potencial das explicações nos resultados académicos, o estudo sublinha que o acesso desigual a este tipo de reforço tende a amplificar as desigualdades educativas pré-existentes, além de impor uma maior pressão financeira sobre as famílias de baixos rendimentos, que tendem a afetar uma proporção mais elevada dos seus recursos a este fim.

Retrato do mercado de explicações em Portugal

O estudo debruça-se também sobre as características das sessões de explicações, mostrando, por exemplo, que a sua prevalência varia de forma significativa consoante o nível de ensino. A incidência atinge o seu valor máximo no ensino secundário, onde um em cada três alunos (33%) em Portugal beneficia deste apoio. Segundo os autores, a maior frequência de explicações no ensino secundário está associada ao peso dos exames nacionais, que têm implicações decisivas no acesso ao ensino superior e condicionam fortemente as decisões das famílias.

O inquérito mostra também que as disciplinas com maior procura de explicações são a matemática, que ocupa a primeira posição (69,8%), seguida do português (45,8%), do inglês (19,8%) e da física/química (11,5%). A maioria das sessões decorre em centros de explicações (51,8%) e, em menor proporção, no domicílio do aluno (9,6%). O formato predominante é o de aulas em grupo, que representam cerca de 50% dos casos, enquanto as aulas individuais correspondem a 41,8%.

O tempo médio semanal dedicado a este reforço educativo é de 3,1 horas, e a despesa média mensal por aluno ascende a 126,4 euros, sendo a matemática a disciplina que envolve a maior despesa.

Apesar do tempo médio semanal dedicado às explicações ser praticamente idêntico em Portugal e em Espanha, as famílias portuguesas gastam, em média, mais cerca de 30 euros por mês e por aluno. Este facto resulta da maior prevalência de aulas individuais e de uma aposta mais intensiva em acompanhamento personalizado, mas também se traduz numa maior pressão financeira sobre os orçamentos familiares em Portugal.

A principal razão para a inscrição de um aluno em explicações prende-se com dificuldades na disciplina em causa (40,8%), seguindo-se a necessidade de preparação para exames (31,3%). Os alunos com resultados académicos mais fracos apresentam uma probabilidade superior de frequentar explicações, tal como aqueles que já reprovaram: em Portugal, a taxa de frequência é de 33,5% entre alunos que reprovaram, face a 19,9% entre os que nunca reprovaram. Os estudantes com necessidades educativas especiais ou problemas comportamentais registam igualmente uma incidência elevada, que pode atingir os 33%.

Estes resultados sugerem que as famílias recorrem maioritariamente às explicações como um mecanismo de apoio complementar quando os alunos enfrentam dificuldades em alcançar bons resultados académicos. Na ausência de respostas públicas suficientemente abrangentes, os autores alertam que mesmo as famílias com menores rendimentos fazem um esforço significativo para garantir explicações aos filhos, suportando um custo financeiro proporcionalmente mais elevado, o que reforça a necessidade de políticas públicas que promovam maior equidade no acesso ao apoio educativo.

Compromisso com a educação como motor social

A Fundação ”la Caixa” trabalha há muitos anos com um compromisso firme com a educação enquanto motor de desenvolvimento social. Através de programas como o Proinfância, desenvolve e implementa um modelo de ação social e educativa integral que contribui para melhorar as oportunidades de desenvolvimento social e educativo de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, recorrendo a instrumentos como o reforço educativo ou o apoio em material escolar. De igual forma, por meio do EduCaixa, disponibiliza a direções escolares, professores e alunos um vasto conjunto de recursos que tornam a aprendizagem mais rica, mais significativa e mais integrada.

Fundação ”la Caixa”: 56 milhões de euros para 2026

A Fundação ”la Caixa” iniciou em 2018 a sua implantação em Portugal, consequência da entrada do BPI no grupo CaixaBank. Em 2026, destina 56 milhões de euros a projetos sociais, de investigação, educativos e de divulgação cultural e científica.