Criadores da Guarda avançam com pedido para reconhecer a cabra jarmelista como raça autóctone

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Nas terras altas e frias do Jarmelo, onde o inverno molda a paisagem e a agricultura se faz de resistência, persiste uma das linhagens caprinas mais singulares da Beira Interior: a cabra jarmelista. Rústica, de pelagem castanha uniforme, quase sempre acorna e perfeitamente adaptada ao clima severo da serra, esta população caprina representa um património genético que os criadores da região querem ver finalmente reconhecido como raça autóctone portuguesa, com identidade própria e proteção oficial.

A Acriguarda – Associação de Criadores de Ruminantes da Guarda lidera este processo, defendendo que o ecótipo reúne hoje todas as condições para ser autonomizado como raça pura. Para os criadores, o reconhecimento não é apenas técnico: significa acesso a programas de conservação, incentivos específicos e apoio estruturado que podem garantir a sobrevivência de uma população estimada em cerca de 1.500 animais, num contexto marcado pela pressão das raças exóticas mais produtivas e pelo declínio da atividade pecuária na região.

Descendente dos caprinos selvagens que habitaram a Península Ibérica, a jarmelista integra a grande família da raça serrana, dispersa em quatro ecótipos — transmontano, ribatejano, da Serra e jarmelista. Entre eles, distingue‑se pela cor castanha uniforme, pelo pelo comprido e liso e pela ausência de cornos, características que resultam de séculos de adaptação ao clima extremo do Jarmelo, às pastagens pobres e à vegetação arbustiva que domina o planalto.

Durante gerações, esta cabra sustentou famílias, garantiu carne — sobretudo o cabrito — e ajudou a manter viva uma economia rural que dependia da capacidade de adaptação dos animais ao território. Pequenos rebanhos acompanhavam o ritmo das aldeias, contribuindo para a gestão sustentável de terrenos acidentados e para a preservação de práticas agropecuárias tradicionais.

Para a Acriguarda, o reconhecimento oficial seria também uma forma de valorizar o trabalho dos criadores que, ao longo de décadas, resistiram ao abandono rural e à pressão das raças exóticas. A proteção legal permitiria reforçar a conservação genética, promover a jarmelista como símbolo da identidade agropecuária da Guarda e abrir portas a novos projetos de valorização territorial.

Num momento em que Portugal redescobre o valor das raças autóctones — pela biodiversidade, pela resiliência climática e pela identidade cultural — a cabra jarmelista emerge como peça fundamental desse património vivo. Uma raça nascida da montanha, moldada pelo frio e guardada como tesouro da Beira Interior.