“Atravessando a Raia” quer transformar fronteira entre Portugal e Espanha num destino turístico comum

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Figueira de Castelo Rodrigo acolheu a apresentação das III Jornadas “Atravessando a Raia”, um projeto de cooperação transfronteiriça que junta o Turismo Centro de Portugal, o Turismo do Porto e Norte e Castela e Leão e que pretende promover os territórios dos dois lados da fronteira através do turismo, gastronomia, cultura, natureza e património.

A iniciativa, que começou essencialmente ligada à gastronomia, assume nesta terceira edição uma dimensão mais abrangente. O programa integra, entre outras atividades, uma exposição etnográfica, um concerto, uma mesa-redonda no Sabugal e um percurso de mototurismo que atravessa os territórios envolvidos, numa aposta na Raia enquanto destino turístico conjunto.

O presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, Carlos Condesso, destacou a localização estratégica do concelho e a importância da cooperação com Espanha. “Somos um território raiano e temos muito orgulho nisso porque, efetivamente, ele traz também muitas oportunidades”, afirmou. Para o autarca, depois de séculos em que a fronteira foi palco de conflitos, o caminho passa agora pela cooperação: “Aquilo que nós temos que fazer é unir-nos, dar-nos as mãos pela promoção desta nossa Raia”.

Carlos Condesso destacou ainda o potencial turístico do interior, considerando que o território oferece alguns dos “luxos do século XXI”, entre os quais “o turismo do silêncio, um turismo que é feito em segurança, um turismo que tem autenticidade”. A gastronomia e os produtos endógenos assumem igualmente um papel central, com o autarca a destacar o azeite, a amêndoa e os vinhos da Beira e do Douro.

O presidente do Turismo Centro de Portugal, Rui Ventura, defendeu também uma nova leitura da fronteira. “Aquilo que em tempos nos separou, hoje aproxima-nos”, afirmou, considerando que castelos, antigas rotas e outros testemunhos históricos podem hoje ser transformados em recursos capazes de atrair turistas que procuram experiências diferenciadoras. “Queremos criar esta sinergia da grande plataforma ibérica e vendê-la ao mundo”, acrescentou.

Rui Ventura anunciou igualmente que está a ser trabalhada, em conjunto com a autarquia, a criação de um posto do Turismo Centro de Portugal em Barca de Alva, destinado a receber os visitantes e promover não apenas o Centro, mas também os territórios vizinhos do Norte e de Castela e Leão. O responsável defendeu ainda a valorização da ligação ferroviária até Barca de Alva e do Caminho de Torres, considerando estes recursos importantes para o desenvolvimento turístico do interior.

Em representação do Turismo do Porto e Norte, Marco Sousa sublinhou que a prioridade deve passar pelo crescimento do turismo em valor. “O nosso objetivo hoje em dia é crescer em valor e não crescer em número”, afirmou. Sobre o projeto “Atravessando a Raia”, considerou que este reúne “a valorização da nossa cultura, do nosso território, da nossa riqueza, da diversidade e da sustentabilidade”, acrescentando a mais-valia da cooperação “entre três instituições, de três regiões diferentes e de dois países”.

Do lado espanhol, o diretor-geral de Turismo da Junta de Castela e Leão defendeu uma estratégia ainda mais integrada, considerando que Castela e Leão, o Centro e o Norte de Portugal devem começar a trabalhar “como um único destino turístico”. “Temos o património, as pessoas, a cultura, a tradição, a história, a gastronomia” e é necessário “sair juntos a vendê-lo”, salientou.

O responsável espanhol chamou ainda a atenção para o impacto económico que o turismo pode produzir nas pequenas localidades, envolvendo restauração, agricultura, produção de queijo e carne, transportes e outros serviços. “O turismo é um desenvolvimento económico total”, afirmou, defendendo melhores infraestruturas, empresas viáveis e mão de obra qualificada para sustentar o crescimento dos territórios raianos.

As III Jornadas “Atravessando a Raia” procuram, assim, consolidar uma estratégia comum entre dois países e três regiões, transformando uma fronteira historicamente marcada pela separação num espaço de encontro e numa oportunidade para valorizar a gastronomia, os produtos locais, o património, a natureza e a identidade das comunidades do interior.