A Feira dos Santos de Mangualde abriu portas para mais uma edição marcada pelo encontro entre tradição e modernidade, reunindo cerca de 400 expositores e colocando em destaque a agricultura, os produtos endógenos, a indústria, o comércio, a gastronomia e o associativismo. Na cerimónia oficial de abertura da edição de 2026, Marco Almeida, presidente da Câmara Municipal de Mangualde, João Azevedo, presidente da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões e da Câmara Municipal de Viseu, e João Moura, secretário de Estado da Agricultura, convergiram na importância de valorizar os recursos do território, criar condições para a fixação de população e reforçar a agricultura como atividade económica com futuro.
A Feira dos Santos assume-se, segundo Marco Almeida, como muito mais do que uma tradição secular. “É uma festa que faz parte da nossa memória coletiva, que passa de geração em geração e que continua a juntar pessoas”, afirmou o presidente da Câmara, acrescentando que o certame reúne “instituições, empresas e a comunidade em torno de uma identidade que nos é comum”. Para o autarca, “não é apenas uma tradição que preservamos, é uma tradição que continuamos a construir”.
Com cerca de 400 expositores e milhares de visitantes, segundo os números apresentados durante a cerimónia, a Feira dos Santos é considerada pelo município “um dos maiores acontecimentos económicos, comerciais e sociais” da região. Marco Almeida salientou que o evento funciona como montra das capacidades de Mangualde e do território envolvente, ao mesmo tempo que “dinamiza o comércio, a restauração, a hotelaria e os serviços” e cria oportunidades de negócio para empresas e produtores.
A edição deste ano distribui-se por diferentes espaços dedicados aos produtos regionais, às freguesias, à agricultura, à indústria e ao setor automóvel, mantendo igualmente a tradicional Feira das Feiras. A componente cultural e de animação acompanha o programa, que contempla bombos, concertinas e música nas ruas, além de iniciativas particularmente ligadas ao mundo rural e ao Cão da Serra da Estrela.
Na intervenção de abertura, Marco Almeida aproveitou ainda para apresentar indicadores sobre a evolução demográfica e económica do concelho. Segundo o autarca, Mangualde terminou 2025 com cerca de 19.500 habitantes, mais 1.056 do que em 2021, traduzindo um crescimento aproximado de 5,7%. “Por detrás destes números estão famílias que escolheram Mangualde, jovens que aqui querem construir o seu futuro e pessoas que encontram no nosso concelho razões para ficar”, afirmou.
Na habitação, indicou que, desde 2021, foram licenciados ou se encontram em processo de licenciamento mais de 500 novos fogos habitacionais. Na habitação pública, foram criadas 46 habitações e estão a ser preparadas outras 30.
A economia foi igualmente destacada. De acordo com Marco Almeida, o concelho tem mais de 2.100 empresas e perto de oito mil postos de trabalho, enquanto a indústria transformadora representa um volume de negócios superior a 1.300 milhões de euros. Automóvel, transportes, metalomecânica, aglomerados de madeira e têxtil encontram-se entre os setores apontados pelo presidente da Câmara, que anunciou também a preparação de uma nova zona industrial para receber investimento, possibilitar a expansão das empresas existentes e gerar emprego e riqueza.
A agricultura ocupou, porém, uma parte central da cerimónia. Marco Almeida lembrou que Mangualde mantém uma agricultura diversificada, da pastorícia à produção de vinho, passando pelos frutos vermelhos e pela apicultura. O concelho conta, segundo os dados apresentados, com cerca de 80 pastores e aproximadamente quatro mil ovinos, 1.800 dos quais ovelhas da raça Serra da Estrela.
“A pastorícia é uma atividade económica, mas é também uma tradição que importa preservar”, defendeu Marco Almeida, associando a atividade à gestão da paisagem e à valorização de produtos de excelência, nomeadamente o Queijo Serra da Estrela. O autarca lembrou ainda o Regulamento Municipal de Incentivo ao Pastoreio e às Raças Autóctones de Ovinos, que terá permitido atribuir cerca de 27 mil euros a 90 beneficiários, e o projeto “Pelos Carreiros da Transumância”, destinado a preservar e valorizar o património cultural associado à deslocação dos rebanhos.
Os frutos vermelhos foram apontados como outra oportunidade para o território, através da produção de mirtilos, framboesas, amoras e morangos, enquanto o vinho foi apresentado como elemento da identidade de Mangualde e da Região Demarcada do Dão. A estratégia passa, segundo o autarca, por reforçar a ligação entre “agricultura, gastronomia, património e turismo”, criando novas oportunidades para o enoturismo e o agroturismo.
A renovação das gerações ligadas à terra foi igualmente realçada. Marco Almeida revelou que, em 2025, foram aprovados cerca de 20 projetos agrícolas de jovens agricultores no concelho no âmbito do PEPAC. “É um sinal de esperança e de confiança. Demonstra que há jovens que acreditam na agricultura e que veem este setor como uma oportunidade futura”, afirmou. O município, acrescentou, acompanha os agricultores através do gabinete municipal dedicado ao setor, nomeadamente na submissão e acompanhamento de mais de mil candidaturas anuais ao Pedido Único.
Perante o secretário de Estado da Agricultura, o presidente da Câmara deixou também reivindicações. “É fundamental que as políticas nacionais tenham em conta as especificidades dos territórios do interior e as dificuldades concretas de quem aqui produz”, declarou, apontando como prioridades a disponibilidade de água e o acesso ao regadio, a modernização das explorações, a renovação geracional, a simplificação dos procedimentos e a valorização dos produtos endógenos. “Precisamos, acima de tudo, de assegurar que os agricultores têm rendimento justo e condições para investir, crescer, mas também competir”, acrescentou.

João Azevedo, presidente da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões, colocou a Feira dos Santos numa estratégia mais ampla de afirmação regional. Para o também presidente da Câmara de Viseu, a organização de iniciativas desta natureza enriquece a comunidade e deve ser encarada como instrumento de competitividade, atração de investimento e promoção turística. “É muito importante para os concelhos, mas ainda é mais importante para a região”, afirmou.
João Azevedo defendeu um trabalho articulado entre os 14 municípios da Comunidade Intermunicipal e o Turismo Centro de Portugal para apresentar e promover conjuntamente o património regional. “A Feira dos Santos tem uma importância enorme para os mangualdenses, todos sabemos, tem séculos de existência, mas também tem que ter importância para o turismo, para os visitantes”, sustentou.
O responsável considera que os eventos podem ajudar a aumentar as dormidas e a movimentar restaurantes, hotéis, comércio e serviços, permitindo que a promoção turística se traduza também em criação de riqueza. Defendeu igualmente que o território deve aproveitar os seus níveis de qualidade de vida para atrair novas famílias e jovens casais, apresentando o interior como uma alternativa às grandes áreas metropolitanas.
A água foi outro dos temas fortes da intervenção de João Azevedo. O presidente da CIM Viseu Dão Lafões considerou-a fundamental para a transformação do território e para o setor primário, referindo o trabalho desenvolvido em torno da barragem de Fagilde e defendendo novas infraestruturas capazes de reforçar a segurança do abastecimento de água na região. “É assim que vamos continuar a fazer, com solidariedade, respeito pelos pares”, afirmou, defendendo uma região unida em torno dos seus interesses comuns.

A agricultura dominou também a intervenção de encerramento do secretário de Estado João Moura. O governante começou por sublinhar o significado das feiras tradicionais enquanto momentos de convívio, mas também como montras da produção dos territórios. “São certames muito importantes para se poder mostrar aquilo que de bom se faz em cada território”, afirmou, destacando a diversidade dos produtos agrícolas portugueses.
João Moura elogiou particularmente o trabalho realizado em torno das raças autóctones e do Cão da Serra da Estrela e anunciou a valorização nacional deste património. Segundo o secretário de Estado, Portugal deverá assinalar, a 11 de novembro, o Dia Nacional das Raças Autóctones, iniciativa que pretende afirmar a importância dos animais e plantas associados à história, cultura e atividade agrícola portuguesa.
O governante destacou igualmente o modelo de apoio municipal aos agricultores existente em Mangualde, considerando-o um exemplo para outros territórios. “Mangualde já o tem há algum tempo e eu enalteço e quero replicar este modelo por todos os municípios que no país o queiram adotar”, garantiu, associando estruturas desta natureza à necessidade de aproximar serviços dos produtores e reduzir a burocracia.
A valorização social da profissão de agricultor foi uma das mensagens mais insistentes de João Moura. O secretário de Estado defendeu que é necessário ultrapassar uma visão da agricultura como atividade menor e mostrar aos jovens que o setor pode ser moderno, tecnologicamente avançado, rentável e competitivo. Para o governante, Portugal dispõe de condições naturais, conhecimento e produtos diferenciadores que devem ser aproveitados para criar valor no território.
Nesse contexto, João Moura deixou elogios ao Queijo Serra da Estrela, apontando-o como exemplo da qualidade que deve ser afirmada dentro e fora do país. O governante defendeu que agricultores, autarquias, comunidades intermunicipais e Governo devem trabalhar na criação de canais de comercialização e exportação e na geração de maior valor acrescentado para os produtos portugueses.
O secretário de Estado anunciou ainda a intenção de avançar com um selo destinado à identificação de produtos provenientes de raças autóctones e de origem “100% portuguesa”, permitindo que o consumidor reconheça esses produtos no momento da compra. “Precisamos valorizá-los de uma forma discriminatória positiva”, afirmou, insistindo na necessidade de reforçar a identidade e a marca nacional associadas à produção agroalimentar.
Até domingo, a Feira dos Santos completa esta dimensão económica e agrícola com um programa que inclui animação nas ruas e no Mercado Municipal, iniciativas dedicadas ao Cão da Serra da Estrela e a realização da 35.ª Exposição Canina Monográfica do Cão da Serra da Estrela, além da entrega dos prémios do 4.º Concurso de Ovinos Serra da Estrela.
Entre agricultores, pastores, produtores, comerciantes, empresários, instituições, associações e milhares de visitantes, Mangualde procura assim fazer da Feira dos Santos uma ponte entre aquilo que herdou e aquilo que pretende construir. Uma ideia sintetizada por Marco Almeida no encerramento da sua intervenção: “Mangualde tem passado, Mangualde tem identidade e, acima de tudo, Mangualde tem futuro”.

