Apesar de o nome soar a novidade, o conceito de teranóstica tem mais de 80 anos, sendo hoje uma das áreas mais promissoras da oncologia moderna. Trata-se de uma forma de tratamento, que parte de uma ideia central com tanto de lógica como fundamento: antes de tratar, confirma-se que o alvo existe. Depois de tratar, confirma-se que o tratamento, em forma de radiação, chegou onde devia. “Tratamos o que vemos e vemos o que tratamos”, resume Inês Lucena Sampaio, Diretora do Serviço de Medicina Nuclear do IPO Porto. É desta lógica que nasce a Teranóstica, a fusão entre diagnóstico e terapêutica, numa abordagem que está, cada vez mais, a mudar vidas.
Tudo começa com a imagem. Com recurso a um radiofármaco diagnóstico, os médicos identificam se as lesões tumorais expressam o alvo molecular pretendido. Só depois, e só nos doentes que cumprem este critério, é administrado o radiofármaco terapêutico: a mesma molécula, mas associada a um isótopo radioativo capaz de destruir as células malignas. No fim de cada ciclo, uma nova imagem confirma onde o radiofármaco chegou e como atuou.
“Aqui conseguimos criar, em tempo real, uma imagem gerada pelo próprio medicamento”, explica Gracinda Costa, Diretora do Serviço de Medicina Nuclear da Unidade local de Saúde de Coimbra. “E isso é muito especial porque nos permite confirmar se as lesões alvo estão realmente a receber a dose de radiação adequada e identificar, de imediato, qualquer captação indesejada do medicamento em tecidos saudáveis”.
Esta capacidade de monitorização em tempo real distingue a Teranóstica de praticamente qualquer outro tratamento oncológico. E tem consequências práticas imediatas: se a imagem revelar concentração excessiva do radiofármaco num órgão saudável é, por vezes, possível proceder a ajustes, de modo a minimizar a exposição à radiação desse órgão.
Menos sintomas e menos efeitos secundários
A precisão é, também, o grande argumento clínico. Gracinda Costa recorre a uma metáfora histórica: “há um conceito muito antigo, chamado a bala mágica: o investigador que o apresentou dizia que a bala mágica correspondia a um medicamento que só afetava mesmo as células que pretendíamos destruir que, em oncologia, são as células neoplásicas malignas”. Apesar de não ser ainda possível evitar, por completo, o impacto nas células normais, “de certa forma estamos plenamente alinhados com essa ideia. Porquê? Porque os efeitos secundários observados, sobretudo quando comparados com os da quimioterapia, são habitualmente muito menos expressivos e os radiofármacos apresentam, de uma forma geral, uma tolerabilidade superior à de outras abordagens terapêuticas”, refere a especialista.

